O Congresso Nacional terá, a partir de 2027, a maior presença feminina da história recente, com um total de 127 parlamentares. O avanço eleva a visibilidade das mulheres na política, mas traz dúvidas sobre representatividade e diversidade.
O Senado terá 18 senadoras, e a Câmara contará com 109 deputadas federais, números que mexem com as dinâmicas internas e as prioridades legislativas. Há expectativa sobre como esse novo cenário vai impactar pautas ligadas a direitos, segurança e políticas de cuidado.
Analistas apontam que o crescimento da bancada feminina é um marco, ainda que a composição por raça, ideologia e posição política revele limites e contradições no avanço das mulheres na política, conforme informação divulgada pelo g1.
Salto no Senado e perfil das senadoras eleitas
A partir do ano que vem, o Congresso Nacional vai contar com 127 mulheres. O número de senadoras vai passar de 15 para 18. Na votação do último domingo (4), doze foram eleitas, o maior número em uma eleição, desde o fim da ditadura no Brasil. O Distrito Federal foi a única unidade da federação que elegeu duas senadoras, no mesmo pleito. Ambas do mesmo partido, o PL, agora se juntam a outras parlamentares de pautas mais conservadoras.
Entre as doze senadoras eleitas, quatro são de partidos da esquerda e oito de centro ou de direita. Apesar do avanço, o Senado fica devendo no quesito representatividade, já que as senadoras serão 22% da composição da casa. Além disso, nenhuma mulher negra conseguiu garantir uma vaga.
Maior bancada feminina da Câmara, avanços e lacunas
A Câmara Federal vai ser ocupada por 109 deputadas federais: 19 a mais do que o quadro atual, fazendo com que seja a maior bancada feminina da história brasileira. Mesmo assim, a representatividade na casa também é considerada baixa, já que quase 80% dos deputados federais são homens.
Um levantamento da organização “Mulheres Negras Decidem” mostra que, com o pleito do último domingo, pelo menos 15 deputadas negras estarão atuando na casa a partir de 2027. A Coordenadora Política da organização, Tainah Pereira, disse, “Nós celebramos muito o aumento. Nós tínhamos nove na última legislatura. Estamos passando para pelo menos 15, o que é muito significativo. Estamos falando de mulheres negras que têm plataformas bastante progressistas, não só em defesa dos direitos das mulheres e da população negra, mas em agendas diversas como educação, economia, meio ambiente.”
Algumas unidades da federação não elegeram nenhuma mulher para a Câmara, entre elas o Distrito Federal, Piauí e Roraima, evidenciando desigualdades regionais na representatividade feminina.
Reações: conquistas, contradições e expectativas
Para a advogada e professora de Direito Constitucional, Damares Medina, o cenário é um avanço histórico, independentemente das causas defendidas. Ela afirma, “Independentemente do espectro político, nós mulheres somos a maioria da população e a maioria do eleitorado e a maioria dos contribuintes, então é importante que isso seja refletido nos espaços de poder e decisão. Ainda há uma grande trajetória no sentido da igualdade, da paridade de representação das mulheres em todos os espaços de poder. Espero que esse seja o início de uma grande mudança.”
A professora de Direito da Universidade Federal de São Paulo, Fernanda Matsuda, aponta a presença de mulheres conservadoras como um fenômeno complexo. Ela observa, “Acho que é sobretudo uma apropriação de uma reivindicação feminista que é a de igualdade entre homens e mulheres. A gente tem a ascensão de feminismos conservadores, com ideias de um papel tradicional desempenhado pelas mulheres. Curiosamente, são mulheres que para fazer isso acabam quebrando barreiras na posição de protagonistas. Então é paradoxal, é contraditório, é um fenômeno bastante curioso.”
Fernanda Matsuda acrescenta que a convivência entre mulheres com pautas distintas não é inédita e sugere que há pontos de convergência possíveis, “Além de a gente ter mulheres que são muito conservadoras, eleitas, a gente também tem mulheres que são aliadas de pautas progressistas. Essa convivência não é inédita e acho que, agora, a tarefa é conseguir a implementação de ideias atreladas aos interesses das mulheres do ponto de vista da garantia de direitos, da superação da desigualdade. A gente tem dentro da agenda feminista algumas pautas que podem ser encabeçadas por mulheres conservadoras, como a política de cuidado ou combate à violência doméstica e familiar.”
O que vem a seguir para a bancada feminina
O aumento da bancada feminina altera o equilíbrio formal, mas os próximos passos envolverão negociações internas, formação de frentes temáticas e a busca por espaço em comissões-chave. A diversidade ideológica entre as mulheres eleitas pode tanto ampliar a capacidade de diálogo sobre temas comuns, quanto fragmentar esforços em pautas mais polêmicas.
Com 127 mulheres no Congresso, deputados e senadores terão pela frente o desafio de traduzir essa renovada presença feminina em políticas públicas efetivas, incluindo medidas de proteção, igualdade e promoção da representatividade racial e regional.